Faça sua empresa despertar para o desafio da transformação digital

Uma olhada rápida nas ofertas de empregos de TI no Brasil revela que as empresas ainda não acordaram para o desafio que têm pela frente

Participo ativamente de eventos com CIOs e faço muitas reuniões de trabalho com esses executivos para discutirmos projetos de transformação digital. Vejo que, embora conscientes do desafio, apenas alguns realmente já se engajaram em iniciativas estratégicas de transformação. Existem várias razões e justificativas para a maioria não estar se engajando em uma estratégia coerente de transformação. Mas, sem dúvida, ficar em stand by esperando que as mudanças aconteçam não é a melhor estratégia.

Além disso, apesar do discurso bonito e inovador dos principais fornecedores de tecnologia, a maioria também não está preparada para ajudar seus clientes a mudar sua maneira de pensar e a tornar sua empresa em uma empresa digital. Muitos deles falam que seus clientes devem ser digitais e ágeis, mas eles próprios, não são digitais, nem ágeis.

Por que estou abordando este assunto? Outro dia, pesquisando no Linkedin, vi vários anúncios de grandes fornecedores globais de soluções e serviços de TI buscando profissionais como consultores de BI, desenvolvedores ABAP, especialistas Linux e por aí. Fiquei curioso e entrei nas oportunidades de vagas. Vi que oportunidades como data scientist não apareciam aqui no Brasil, apenas no exterior.   Olhei também as grandes empresas usuárias de TI e identifiquei que as vagas continuavam as tradicionais, como desenvolvedor Java, Web e analista de suporte. Olhei a descrição de várias e observei que expertises relacionadas a Cloud Computing, Analytics Avançado, desenvolvimento de apps ou bots eram tangenciados. Não se buscava especificamente, por exemplo, por um “cloud architect”. Me acendeu um sinal amarelo.

Sem expertise, dificilmente as organizações podem se dizer preparadas para a chamada Quarta Revolução Industrial.   Este fenômeno, a Quarta Revolução Industrial, vai afetar toda a sociedade. Consequentemente, todas as indústrias estão diante de oportunidades e ameaças. As ameaças são simplesmente empresas ou setores de indústria desaparecerem. Mudanças aceleradas já estão acontecendo e as empresas tradicionais, consolidadas em seus modelos de negócio construídos antes da revolução digital, que é a base da Quarta Revolução, encontram dificuldades de enfrentar novos entrantes que trazem soluções inovadoras, que tornam obsoletos muitos dos negócios que sustentam as empresas atuais.

É fundamental que os executivos compreendam que as mudanças que estão ocorrendo acontecem em ritmo exponencial e não linear. Os próprios modelos de negócio, consolidados por décadas de sucesso, estão sendo colocados em cheque hoje. Assim, repensar o propósito e criar novos modelos de negócio, mesmo que às custas de canibalização do atual, passam a ser requisitos de sobrevivência. O status quo deve ser questionado e para isso não é suficiente olhar apenas para seus concorrentes, mas para todos os lados. A disrupção provavelmente não virá de nenhum concorrente direto. Para isso, além de tecnologia, é fundamental ter os talentos adequados.

Vamos olhar a área de TI, essencial neste cenário de mudanças. A base da nova infraestrutura tecnológica é indiscutivelmente a computação em nuvem. A rápida evolução do mercado de Cloud Computing introduziu novos desafios, obrigando a que os setores de TI se tornem obrigatoriamente mais ágeis. DevOps passa a ser o modelo mental de desenvolver e entregar sistemas. O Agile Manifesto passa a ser o princípio filosófico da TI e de toda a empresa. Manter custosos data centers, entulhados de servidores, vai se tornar exceção. Não será mais a regra. Pensar digital implica em pensar naturalmente em nuvem. Que talentos são necessários para isso?

Proponho uma função como “Cloud Architect”.  Ele deve construir as conexões entre os executivos e as equipes de entrega contínua. É evangelista de Cloud, pensa em Cloud de forma natural e não como tecnologia emergente.  Ele mapeia a arquitetura da aplicação em nuvem, identifica a melhor solução (privada, pública, híbrida) e ajuda as equipes técnicas a colocarem de pé a solução. Deve construir as relações com os provedores de nuvem, definir e gerenciar as cargas, negociar licenças, e entender a fundo o ambiente virtual, de modo a selecionar a melhor solução em nuvem para determinada aplicação.  Não tem apenas perfil técnico, mas também executivo.

Não vi nenhuma vaga em aberto para este perfil por aqui, e nem sei se a academia está preparando profissionais para estas funções. Analisando muitos programas de universidades brasileiras vi que Cloud muitas vezes é uma palestra perdida no meio de centenas de horas de educação. E, geralmente ministradas com apoio de algum fornecedor de tecnologia, que obviamente dará seu viés ao conteúdo. Duvido, sinceramente, que seja o adequado.

Um exemplo deste perfil é a vaga de “Chief Cloud Architect” oferecida pelo PayPal nos EUA. Como eles definem: “The Cloud Architect is a senior technical leadership role in the PayPal Platform and Technology group. As a thought leader and visionary, the successful candidate will have an opportunity to define the next steps and drive the innovation for PayPal Cloud. Currently, PayPal Cloud is hosting its core business by providing self-service compute, storage and network for mission critical production systems as well as developer community supporting thousands of applications. It is one the largest OpenStack private Cloud in the world, deployed in multiple geographical regions and availability zones with 100s of thousands of physical cores on thousands of hypervisors and petabyte(s) of block & object storage provisioned”. Alguns dos requerimentos para a função: “Passion to build Public/Private Cloud for large-scale enterprises; mentor engineering teams and Infrastructure team through formal and informal discussions, design reviews, technical presentations, or as a consultant on projects; provide Cloud Deployment Architecture and Design to Cloud Deployment team; work with development and architecture team setting the standards and patterns for cloud.; drive Cloud Backbone Architecture and implementation; e collaborate with cross-functional teams and business unit leadership in developing project objectives and timelines”. Nas buscas que fiz no Linkedin por vagas similares, em aberto no Brasil, inclusive nos principais fornecedores de tecnologia, não vi  nada parecido.

Vamos a outra função essencial: Data Scientist. Olhei no site www.dice.com e a busca me trouxe quase 35 mil posições em aberto nos EUA. Interessante que na maioria dos eventos e pesquisas com CIOs e mesmo CEOs, os temas Analytics Avançado e Big Data aparecem como prioridade. Os objetivos declarados nas pesquisas é obter vantagem competitiva e melhorar a experiência do cliente. Entretanto, um estudo da McKinsey, “The need to lead in data and analytics”, mostra um certo desapontamento com o fato de as iniciativas não terem desenvolvido uma estratégia adequada para uso de análise de dados, que envolva comprometimento dos executivos seniores (CEO deve ter papel preponderante e não apenas o CIO, já que não estamos falando de um projeto de TI) pela falta de uma organização e estrutura adequada para essas atividades, e pela dificuldade atrair e reter talentos relacionados a Analytics Avançado.

Mas, se não vemos vagas em aberto para este perfil, a sensação eu tenho é que as empresas atuantes no país, em sua maioria, ainda olham Analytics Avançado como um BI turbinado com uma ferramenta de visualização moderna como Tableau.  Um exemplo tirado do dice.com é uma vaga para a Kohls, uma rede americana de lojas de roupas presente em 49 estados, com mais de mil estabelecimentos. A descrição da vaga: “Data scientists interpret and apply data in analyses, and explain findings to business audiences typically, to improve products and processes. Projects support business decision making for multiple business functions. Designs, creates, implements, and manages predictive analytics that leverage large and varied datasets, using a wide range of analytical tools, methods, and platforms. Primary responsabilities interprets and applies data analytics to translate recommendations into business insights”. Algumas funções da vaga: “Uses analytical rigor and statistical methods to analyze large amounts of data, culling actionable insights using advanced statistical techniques such as predictive statistical models, customer profiling, segmentation analysis, survey design and analysis and data mining, designs experiments to answer targeted questions. develops materials to explain project findings to Management, develops new algorithms and mathematical approaches to understand the company’s audiences and solves complex business problems such as optimizing product performance, revenue and adoption and researches new ways for modeling and predicting end-user behavior”.

Não achei vagas deste tipo nas redes varejistas brasileiras. Claro, pode ser que não estejam em aberto e elas tenham já estes talentos em casa, mas não creio que a maioria dos nossos varejistas tenha esta função. Espero estar errado!

Mobilidade? A App Economy é uma realidade. Só na App Store já foram feitos mais de 100 bilhões de downloads e, em 2015, a receita gerada pelas lojas de apps foi maior que a receita da indústria cinematográfica americana.

Todo negócio tem que ter acesso móvel. Mas, um fator que muitas vezes passa desapercebido no desenvolvimento dos apps pelas empresas é a importância do design da aplicação; a experiência que ela passará para o usuário. Uma analogia simples: imagine que sua app é um filme e os usuários sua plateia. As estrelinhas de avaliação que você (ou sua app) receber será proporcional à reação, mais positiva ou mais negativa, da plateia ao filme ou melhor, à sua app. A experiência deles com a app é que realmente conta.

O app deve ser desenhado para gerar experiência positiva, o que chamamos “design for emotion”, como em um projeto de um filme. Tem que ser usável, intuitivo e apresentar bom desempenho. Sim, não é uma tarefa fácil. Desenvolver apps não é jogo amador. Surge uma pouco conhecida função no mundo dos desktops, teclado e mouse, o UX Designer ou User Experience Designer. O UX designer deve, para planejar a experiência do usuário, criar uma persona (personagem fictício que vai representar seus usuários), projetar a experiência visando o deleite destas personas e, por fim, testar o app e a experiência que ele propõe no mundo real.

Novamente recorri ao dice.com e vi mais de 73 mil posições em aberto nos EUA. Uma dela é na Thomson Reuters. A descrição básica: “We are looking for a Senior User Experience Designer with a passion for user-centered design. As a member of the UX team, youll work with research, product and engineering. This is a senior, influential role. In this role, youll be developing the foundation for a stealth new project that will reach millions of professionals and help them interact with information and colleagues”. Entre as responsabilidades, “translate requirements into highly usable, efficient and elegant user-centered designs, visualize a user experience in the abstract, and drive that vision into solid design deliverables, design the UI architecture, interface and interaction flows for a variety of screen sizes and interaction models, create process flows, wireframes and functional design specifications for engineering, present designs to the UX, product, engineering and management teams for review and feedback, collaborate with engineering, product and research to ensure consistent designs, plan and manage time appropriately to deliver high quality work on time and assist in planning user research and testing”. Voltei ao Linkedin e a vagas em aberto nos sites brasileiros e esta função praticamente inexiste.

A triste conclusão é que os setores de TI no Brasil, em sua maioria, ainda não acordaram para o imenso desafio que têm pela frente. A leitura de um estudo da McKinsey de 2014, “IT under pressure: McKinsey Global Survey results”, mostra que o reconhecimento da importância de TI pelas organizações mundiais está aumentando e que seu valor estratégico já está sendo reconhecido. A impressão que tenho é que aqui no Brasil este reconhecimento ainda é exceção na maioria das empresas brasileiras. A consequência será a perda de competitividade em um mundo cada vez mais globalizado e desafiado pela Quarta Revolução Industrial. Que não espera pela superação de crises, nem respeita fronteiras. É necessário despertar para o desafio!

Artigo original da Computerworld

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